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Viver com sentido

Existe mais para além do que nos contam..!

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Será que a soja faz mal?

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 Nos últimos tempos, a forma como olhamos para a alimentação tem sofrido muitas mudanças devido tanto a questões éticas, ecológicas ou por razões de saúde.

  A soja e os seus derivados têm vindo a ganhar expressividade na alimentação, contudo, mantem-se controversa.

  Não poderia deixar de referir que existe uma diferença entre o que "ouvimos dizer" e o que tem algum fundamento... Aliás, para começar bem, deixo-vos aqui um excerto que creio resumir muito bem as "extrapolações" para humanos de resultados dos estudos feitos em animais ou in vitro

 

 "Concerns about the adverse effect of soy consumption were originally based on animal data. Today we are aware of the difficulty of extrapolating data from in vivo study to human utility in daily application."

 

Vamos então perceber um pouco melhor o que é a soja!

 

    A soja é uma planta asiática, com produção mundial que vai desde os USA, Brazil, Argentina, China... As diferentes na condições climáticas levam a uma diferença no conteúdo de isoflavonas, que podem ser benéficas. Para além das isoflavonas, a soja é uma fonte maioritariamente proteica que contém também hidratos de carbono, gordura e algum conteúdo de vitaminas. 

   Os seus HC são maioritariamente polissacáridos, que são um tipo de fibra fermentável pela nossa microbiota (responsável pela produção de gases). O seu conteúdo em lípidos é maioritariamente insaturado (ómega 9) e poliinsaturado (ómega-3 e 6), que estão associados a benefícios conhecidos na saúde. O perfil de aminoácidos da soja varia consoante o local de cultivo e a sua digestibilidade depende da quantidade de fibra e outras propriedades anti-nutricionais (ex: fitatos). O seu índice químico é o que se aproxima mais da proteína do leite de vaca e ovo, contudo, existem diferenças relativamente à síntese proteica muscular.

  Relativamente à qualidade proteica, por ser de origem vegetal, há diferenças em comparação com proteínas animais devido à sua composição em aminoácidos, bem como à sua biodisponibilidade, sendo que a proteína animal é de qualidade superior à proteína vegetal. Neste sentido, quem realiza um estilo vegetariano, poderá ter necessidades proteicas diárias mais elevada, de forma a conseguir atingir de forma harmoniosa os aminoácidos, no entanto, não me irei alongar nesta parte porque foge um pouco ao tema.

    O processamento associado à manipulação pode alterar bastante o conteúdo em nutrientes e antinutrientes. As temperaturas elevadas são fundamentais para manter o conteúdo de isoflavonas presentes. 

 

E as isoflavonas, o que são?

 As isoflavonas são fitoestrogénios pertencentes à classe dos fitoquímicos não esteróides, que possuem uma estrutura semelhante ao estrogénio. O seu conteúdo no alimento está dependente da temperatura e das características do solo.

 Ainda que as isoflavonas tenham potencial para interagir com os receptores de estrogénios, estão associadas a um efeito antioxidante proveniente dos flavonóides, com impacto positivo na diminuição do LDL-c (o designado "mau colesterol") e um aumento do HDL-c, especialmente em adultos com o colesterol total elevado. Ainda não é possível afirmar a existência de associação significativa entre o consumo de isoflavonas e o risco de doenças cardiovasculares.

 

 "Overall, the low content of bioactive compounds in second generation soy foods and moderate amounts in traditional soy preparations offer modest health benefits with very limited risk for potential adverse health effects. At the same time, to have the beneficial effects of soy isoflavones, intake should be at least of 60–100 mg per day"

 

Carcinogénese

   Apesar de existirem poucos estudos epidemiológicos que avaliem a associação entre o consumo de soja e as isoflavonas, antes ou após o diagnóstico de cancro da mama, a evidência aponta para uma diminuição do risco de mortalidade, associado ao consumo da soja, em especial para a população chinesa. No entanto, para a população ocidental, as evidências são limitadas, talvez devido a que o consumo de soja não seja tão elevado em comparação com países orientais.

 

"Studies are needed to further quantify whether associations between dietary isoflavone intake and survival vary by tumor hormone receptor status and by receipt of hormone therapy for the treatment of breast cancer."

 

   Estudos de coorte com grandes amontragens, demonstram existir uma diminuição estatisticamente significativa entre o consumo de soja e o risco de cancro pré-menopausa, sem associação ao cancro de mama pós-menopausa. Mesmo para o diagnóstico do cancro da prostata, está associado a uma diminuição do mesmo.

 

"However, while soy use significantly reduced prostate cancer diagnosis, prostate specific antigen levelsin serum (PSA) was not affected by short term soy isoflavone intake".

 

  Já para o cancro colorectal, endométrio, do estômago e pulmões existem meta-análises que demonstram que o consumo de soja está associado a uma diminuição significativa do risco.

 

"A recent comprehensive meta-analysis including 143 studies on the association between isoflavone intake and cancer risk distinguished results by study design as only prospective studies are considered valid to draft evidence of association between foods and health outcome: the report showed significant results for the association between isoflavone intake and decreased risk of stomach and lung cancer, while nearly significant decreased risk of breast and colorectal cancer. However, further prospective studies are needed to confirm the latter retrieved association."

 

   Na verdade, a soja está associado a um efeito protector para o cancro de mama em mulheres na pré e pós-menopausa. 

 

Outras propriedades da soja...

    A menopausa é uma fase associada a grandes mudanças, sendo uma delas a diminuição da densidade óssea, devido ao declinio do estrogénio endógeno, o que aumenta o risco de osteoporose. O consumo de proteína de soja isolada rica em polifenóis, na altura pré-menopausa, está associada a uma atenuação do declínio do estrogénio endógeno. Para além disso, o seu conteúdo em isoflavonas está associado ao aumento do cálcio, sendo que o cálcio presente na soja tem uma biodisponibilidade elevada.

   Para além disso, a substituição hormonal com isoflavonas, pode melhorar os desconfortos associados à menopausa como aqueles "calores" característicos

 

Relativamente à tiróide

     Estudos realizados em pessoas com patologia tiróideia já existente demonstra que pode existir alguma maior preocupação, especialmente no hipotiroidismo (algumas alterações foram demonstradas). Contudo, existe um viés de estudo associado ao baixo consumo de iodo, o que pode influenciar as alterações. Já para pessoas sem patologia, é pouco provável que a soja possa alterar a função tiróideia. 

 

Relativamente às hormonas sexuais

   O estrogénio é uma hormonal sexual responsável pelas características femininas. Na mulher, revisões sistemática demonstram existir pouco impacto nas hormonas sexuais em mulher na pré e pós menopausa.

"A retrospective epidemiological study did not find a link between exposure to soy formula and reproductive outcomes."

 

  No sexo masculino, o aumento de características femininas, disfunção eréctil ou diminuição da líbido, pode estar associado a consumos elevados de isoflavonas. Controversamente, as hormonas sexuais e qualidade/quantidade do esperma não estão associadas ao consumo de isoflavonas.

"Testosterone levels were evaluated in a meta-analysis of 32 reports with no conclusive interaction between soy or isoflavone intake and free testosterone concentrations".

 

 

CONCLUSÕES

  A premissa de que a soja causa cancro ultrapassa a velocidade da ciência. Aliás, considero muito importante de referir que a carcinogénese é um processo super complexo e que a associação entre "fazer cancro" e determinados alimentos é muito interessante, sem dúvida, mas apenas fidedigna daqui a uns anos. Para já, parece-me uma atitude um pouco incorrecta assumir tanto extremismo alimentar... Apelo ao BOM- SENSO e a estilos de VIDA saudáveis e felizes.

  A carcinogénese poderá estar associado a uma componente genética, à expressividade dos nossos genes relativamente ao meio ambiente em que vivemos, à obesidade, sedentarismo, tabagismo, hábitos etanólicos exagerados e uma alimentação marioritariamente processada e pouco nutritiva. O que significa isto?

  No geral, tirando a componente genética que dificilmente podemos mexer, está associado a hábitos pouco saudáveis! Não existem alimentos que simplesmente provoquem cancro ou, pelo contrário, protejam contra o cancro. Sem dúvida que os estilos de vida tem impacto na saúde mas que vai muito para além da soja ou do legume verde que comemos. Assim sendo, devemos apostar na variedade e não somente em 8-10 alimentos que consideramos saudáveis. Devemos apostar na moderação, na medida em que tudo na nossa vida tem potencial de ser maléfico. 

  É de ressalvar que a alimentação vegetariana, por si só, não significa ser mais saudável e pouco processada, uma vez que muitos alimentos vegetarianos são ricos em açúcares, gorduras, podendo ser bastante calóricos. E para o consumo de soja e derivados... Espero que tenham percebido que, mais uma vez, não há necessidade de tamanha preocupação.

   Sejam conscientes e variem!

   

 

Para mais infos, podem consultar a American Institute of Cancer Research

RIZZO G, BARONI L. (2018). Soy, Soy Foods and Their Role in Vegetarian Diets. Nutrients 2018, 10, 43. DOI:10:3390/nu10010043

YOU J et al. (2018). The association between dietary isoflavones intake and gastric cancer risk: a meta-analysis of epidemiological studies. BMC Public Health 18:510. DOI:10.1186/s12889-018-5424-7

ZANG FF, HASLAM DE, TERRY MB, KNIGHT JA. (2017) Dietary Isoflavone Intake and All-Cause mortality in breast Cancer survivors: The Breast Cancer Family Registry. Original Article. DOI:10.1002/cncr30615

 

 

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